Sempre que escrevo um poema, um poeta de verdade se remexe no túmulo, por dor ou por pena
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segunda-feira, 4 de julho de 2011

não sei pra quê fui cantar pra você

Poderia começar com “eu estava em paz quando você chegou”, mas sabia que isso sempre e para sempre se repetiria. E voltaria de férias, e talvez não encontrasse a casa como deixou, nem o lugar. Da janela lateral do quarto de dormir as horas não passariam como de costume, não poderia voltar atrás. Melhor encerrar qualquer possibilidade de sentimento que poderia vir a ser um sentimento outro, fora do lugar-comum, longe de qualquer razão de ser. Oh meu Deus, porque mesmo isso acontece, por quê? Poderia falar da primeira vez que viu, ou que quase não viu, se fosse para ser mais exata. Aparentemente satisfeita prometeu a si que qualquer coisa seria suficiente, esqueceu que nunca é. Nem começo de tarde, nem o dia todo seria bastante para. Não compreendia, mesmo inerte não poderia deixar de pensar. Tinha um livro, alguns textos e páginas de revista. Quando ao lado ainda é muito mais longe que qualquer lugar, ela continuava a querer um sol acima do sol. Não haveria nenhum jardim, nem flores, nem corações partidos, nem reparos. Sairia caminhando devagar, olhando a cidade, as luzes ao longe, uma canção, qualquer som que saísse de um piano e indicasse uma música que sequer saberia definir o ritmo. Pouca gente poderia entender, afinal não há tempo para isso. Daqui a pouco começaria a chover, e no apartamento vazio, aos solitários pouco resta além da solidão. Abriu uma garrafa de conhaque e voltou a fumar.



“ Não sei pra quê
Fui cantar pra você
Essa hora “

sábado, 12 de fevereiro de 2011

• Itinerário

Pudesse escolher entre ser feliz e ser feliz. Pudesse quem sabe dizer o que é este desejo súbito de viver. Atingiria o controle absoluto e não mais estaria sujeito as peripécias do destino. Desde não sei quando sentia-se assim, sem aborrecimentos. Após descobertas que um dia julgaria catastróficas decidiu que escreveria um texto. Três linhas, Del. Não tinha tempo para aborrecimentos. Não tinha dó, piedade, só esse desejo súbito de viver. E nesse desejo súbito não cabia olhar o passado, não cabia nem mesmo perder tempo com presentes certos demais. Queria o incerto, o não te ligo amanhã, não espere. O colocar de caminhos traçados incomodava. Da carreira poderia saber, de amores não mais. Nada de te pego na escola e encho a tua bola com todo meu amor, nem daqueles de fugir pra outro lugar baby. Queria os clandestinos. Os incertos. Os com vírgulas e pontos onde bem entendesse. Sim, podemos ser somente amigos e não me ligue, não me procure, não me toque. Por enquanto deixa eu brincar de ser feliz, pintar o meu nariz e todo o resto.

Amar a nossa falta mesmo de amar,
e na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
( Carlos Drummond de Andrade )

quinta-feira, 8 de abril de 2010

• acima do sol

Os dias passam e o que fazia sentido agora deixa de ter significado, pelo menos lógico. Não há mais nada que faça voltar ou revoltar os sentimentos até então existentes. Atrás das janelas não se vislumbra mais o horizonte em comum que por algum motivo ou razão existiu, um dia. Por um momento ela quase deixa de sentir fome ou frio, daqueles de gente, de amor, de cumplicidade e entrega. Recompõe-se devagar, traço após traço. Os sonhos ainda a incomodam, e no meio da noite às vezes acorda assustada, pensando ser algum sinal. Eu queria insistir, mas o caminho só existe quando você passa... De repente, aquele outro ser que se misturava em sentimentos - ou em razão, que seja – ao dela, havia trazido uma possibilidade de deixar de lado a estagnação, a inércia. Poderia permanecer em casa lendo, ou sair e ver o mundo, sem se importar com o porvir. ‘ Estou contente outra vez’, pensou. E era tão bom se sentir assim.

Assim ela já vai
Achar o cara que lhe queira
Como você não quis fazer
Sim, eu sei que ela só vai
Achar alguém pra vida inteira
Como você não quis... ♪