Sempre que escrevo um poema, um poeta de verdade se remexe no túmulo, por dor ou por pena

terça-feira, 13 de setembro de 2011

conta outra

É bem certo que quando termina algo na vida, pelo mínimo de consideração você deve passar um processo de luto. Então, use preto, chore, beba conhaque, faça drama, sofra. Compre um maço de cigarros e fume-o até o fim. O importante é que algo dentro de você indique que você tem um coração, não desses de pedra. Não adianta, alguma coisa sempre termina. Quase nunca da melhor forma. Só resta escolher até quando vai cultivar a tristeza. Até quando irá se permitir sofrer. Se é bem certo que o seu eu - lírico age melhor nos dias cinzas, mande-o para o inferno, e que o diabo o carregue. Vá para o primeiro boteco e brinde o desapego. Tatue um trevo de quatro folhas e espere pela sorte. Lá fora a vida sempre continua.

“Conta outra,

Nessa eu não caio mais

Já foi-se o tempo em que eu pensei que você era um bom rapaz”

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

setembro

Busco respostas e encontro apenas o vazio. O barco parte para longe do cais. Em breve não mais o verei. Sinto o cheiro de tinta do barco recém pintado de vermelho. Não lançarão sua ancora no meio do mar. Os ventos fortes talvez nos destrocem. Estarei à deriva por um longo tempo. Longe da fortuna de todas as suas coisas. A espera de um dia frio em que se possa enfim descansar. O barco à deriva no mar me afastará dos longos pesadelos noturnos. Estaremos bem longe do cais. No meio do mar as estrelas são mais visíveis, o céu é mais bonito, “é doce morrer no mar”.

“Chega o Sol, mas não chega o amanha.
Chega a chuva, mas não chega o frio.
Chega você, mas não chega o amor.”

rafael de lima fonseca

piano bar

Então me ligue, diga que foi ao cinema, que foi assistir lanterna-verde. Que se mudou para o Rio de Janeiro, que não tem mais o sotaque mineiro. Diga que vai fazer astronomia, que desistiu dos concursos. Que voltou a dar aula. Que desistiu de deixar o cabelo crescer. Diga que eu fico mais bonita com o novo corte de cabelo. Que eu pareço mais inteligente. Diga que ainda gosta de HQ’s. Que eu posso voltar a ser a Harleen Quinzel. Que você conheceu coisas novas. Diga que amanhã você vai me ligar para irmos ao cinema. Porque eu tenho tanta coisa para te contar. Conte-me sobre os seus casos de amor. Aquela menina, a única, eu encontrei esses dias. Conte-me até os repetidos. Liga só para me fazer sorrir. Só para me dizer que ainda tem o mesmo carro. Só para me contar do seu tempo de faculdade. Só para me explicar mais uma vez as leis da física. Só para eu poder dizer mais uma vez que a lua está tão bonita que chega a doer por dentro. Só para colocar as músicas com aquele sotaque carioca que eu detesto. Só para cantar. Só para fazer as batidinhas da bateria no meu corpo. Conte-me qualquer coisa que eu ainda não sei. Fale-me sobre seus projetos. Diga que leu um livro novo. Que a gente precisa fazer alguma coisa juntos. Que a biblioteca continua a mesma. Que nunca vai gente bonita lá. Diga que você desistiu de seduzir as pessoas com bilhetinhos no carro. Que você largou o romantismo. Diga que a vida segue como sempre. Que eu só quero que você me pergunte se eu estou bem, para eu poder contar tudo de novo. Diga que eu estou emagrecendo. Que a gente vai dar volta de carro até a minha raiva acabar.

Liga, que eu já ouço Beatles, e que a gente pode ir a um show de verdade. Liga que daqui do outro lado do mundo ninguém precisa saber de nada. Diga que tudo vai passar.

Liga, que eu preciso do teu colo de novo.

Can't Take My Eyes Off You

Como pode me atirar do precipício após me levar até ele? Como pode depois de tanto tempo desacreditando em tudo que era dito amor, fazer com que tristezas se repetissem? Nunca pedi socorro, nunca tive nenhum estado de fraqueza. Nunca corri para a estrada e nem pedi ajuda. Nunca mais acreditei que poderia sofrer. E como pode tudo desaparecer após segundos, como pôde me atirar do precipício? Nunca acreditei em promessas e por isso não as fiz, e sei que também não fizestes. Você apenas estava lá acenando na beira da estrada e fazendo pedidos ao acaso. Você apenas deixou que eu me apaixonasse e no dia seguinte partiu. Nunca fizemos planos de verdade e mesmo assim fica aquele gosto amargo de uma vida que não foi. Sei que fizestes sem pensar, sem dimensão, e assim também o fiz. Sei que não se dá amor pedindo amor em troca. Sei que pode não ser uma via de mão dupla. Mas nem tudo que a gente sabe, entende. Não é como apertar o gatilho, ou tirar a mangueira do gás e esperar pela morte. É involuntário, melancólico, lento e sofrido.

Não quero ser. A mão que guia o mundo nada faz a meu favor. Não há nada em si a ser descoberto nem encoberto. O tiro do revólver foi dado e não há salvação em nenhuma dimensão. Naquele mesmo cais o barco afundou, e só sobraram destroços que não mais tomarão forma. Naquele mesmo dia em que me sentei ao seu lado no banco da praça sabia que alguma coisa irremediável aconteceria.

Você apenas estava na estrada acenando e fazendo pedidos ao acaso. Você apenas me atirou do precipício. Quando o sempre é nunca.

"And so it is

The shorter story

No love, no glory

No hero in her sky"


inspiração original: http://papoprivada.blogspot.com/2011/07/falsos-poetas.html

Sun In My Mouth

De tudo que eu sei nessa vida não sei esperar. Isso me consome por dentro. Há total lesão de sentidos , de senso, de razão. Tudo se embaça e as pessoas nas ruas não passam de figurantes de uma história sem história. Ando sem destino por caminhos imaginários. Nem em pensamentos estou segura. A escuridão toma conta do ser e por certo tempo o coração dispara. Em meio às sombras do passado nada reconfiguro acerca do presente. As coisas deixam de ter razão de ser. Tudo se corrói como o metal. E nada mais resta além do não acreditar no mundo, no homem, em Deus. Tudo não passa de solidão, a espera é o pior dos males. Branco e preto, branco e preto, preto e preto.

E se do pó vim, é dito que ao pó voltarei. Minha única certeza.

"Alive with closed eyes

To dash against darkness"

Clocks

Linhas que não poderiam ser mudadas e caminhos que talvez nunca mais se cruzem. Das trevas que emergem em meio a escuridão nada poderá se salvar. Não há tempo. O fogo queima e em pouco tempo tudo se desfaz. As cinzas não são reconstituíveis. O tempo consome tudo, muito se perde. Só vivemos uma vez nessa vida. De resto, todas as coisas se consomem, somem engolidas pelo tempo. Um buraco negro em algum lugar do espaço faz com que nada volte.

E não mudaremos o passado e nada sabemos sobre o futuro. Dos dias nem mesmo poderei dizer que pertencem a Deus. Deus faz tempo esqueceu dos mortais. Não há mal, não há bem, apenas atitudes que geram ou deixam de gerar sentimentos, estes incontroláveis. Incontroláveis mas possíveis de se esconder, e se esquecer e de não mais se ter. Não jogue as chaves fora.

Saia ou retire-me do incêndio enquanto há tempo. Breve tudo se findará.

"Come out upon my seas

Cursed missed opportunities

Am I a part of the cure?

Or am I part of the disease? Singing"

domingo, 11 de setembro de 2011

sob os morangos mofados

Pelo tempo que durar o maço de cigarros, pelo visto não muito. Se eu trouxesse muito lentamanente à memória algumas coisas boas talvez não as encontrasse. Da janela do meu quarto posso ver a lua, somente posso. No dia em que Júpiter encontrou Saturno fingimos não nos reconhecer. Como velhos desconhecidos passamos pelas ruas. Do outro lado da vida, do mundo. Volta o velho gosto, a velha nãoacreditanssia, as velhas palavras. Dos dias em que nada acontece aos que se abre uma nova garrafa de conhaque. Vai ver adoça a vida. Pelo tempo que durar esse sentimento. Que durou.

Quando a vontade de estar perto é substituída pelo medo, cruza-se a linha tênue. Dos dias de volta no parque, nada restou. Quando o medo torna-se a premissa, nada resta. Naquele lugar em que costumávamos afogar as nossas mágoas, que talvez sequer existissem.

Só agora me ocorreu que talvez nada tenha existido e nada tenha acontecido. E tudo não passou de uma fantasia, inventada descompromissadamente para que não passássemos sozinhas as horas em que cansados de estudar nos víamos. Sozinhos e frágeis, e vazios de qualquer utilidade para o mundo. Tristes seres errantes que jamais querem acertar.

Enquanto durar o maço de cigarros prometo a mim que não o esquecerei. E quando lembrar das horas do vazio, o farei como a única coisa que restou de um caso que durou menos que o cair das folhas do outono. Do dia em que eu poderia ter sido a mulher mais feliz do mundo. E nada mais que um dia seria suficiente parar retirar da geladeira os morangos mofados.

Não mais atravessarei o deserto até o local onde você se encontrava. Você era apenas uma miragem. E as estrelas mudam de lugar, os móveis se embaçam, e o ponto fixo – que era a porta – não mais existe. Contemplo descompromissada o vazio. Viver é cada dia mais perigoso.


"No entanto (até no-entanto dizia agora) estava ali e era assim que se

via. Era dentro disso que precisava mover-se sob o risco de. Não sobreviver,

por exemplo - e queria? Enumerava frases como é-assim-que-as-coisas-são ou

que-se-há-de-fazer-que-se-há-de-fazer ou apenas éofinal-que-importa. E a

cada dia ampliava-se na boca aquele gosto de morangos mofando, verde

doentio guardado no fundo escuro de alguma gaveta."

(morangos mofados-caio fernando abreu)

sábado, 10 de setembro de 2011

relicário

O sol daquele dia era o mesmo de todos os outros. A lua um dia havia lançado seu olhar benevolente sobre nós. A noite era suficientemente clara para se observar as estrelas quando sentei-me a primeira vez ao seu lado, naquele banco de praça. Estar nesse imenso mundo de pessoas que jamais se encontram faz fantasiar outro, melhor. Os mundos possíveis de Leibniz amenizam meu sofrimento, em um mundo possível serei feliz. Aos deuses do acaso não entregarei mais nenhum encontro. O relógio que até pouco tempo passava depressa marcou sua última badalada, mas nenhum outro mundo é capaz de remover essa sensação de fim. Fim de várias convicções e certezas que a pouco haviam voltado a ser. Uma ideia incoerentemente bela havia sido proposta, uma convicção foi colocada em xeque. O mundo é mais bonito no cinema, e é a vida que imita a arte e não o contrário. A recusa em tentar aceitar o que um dia todos disseram foi a premissa para inventar uma história outra. E não poderia esperar essa fuga, esse não habite-se. Encontrei a última pessoa que queria ter encontrado nessa vida. Quase um personagem literário passível de várias interpretações. Um falso poeta que não sei dizer se finge sentir que é dor a dor que deveras sente. Risco com caneta a fé do mundo. Através do seus olhos meio fechados pensei ter encontrado abrigo. Tudo não passou de um sonho. Dos dias que passaram pouco sei dizer sobre o que foi real. Não era preciso sorte, a bolinha que toca na rede e pode por um minuto fazer com que se ganhe ou perca a partida de tênis não é uma metáfora para as decisões humanas. Era preciso apenas uma escolha, apenas uma oportunidade. A sorte já havia encaminhando o começo, não se pode contar com ela para sempre. Foges assim, sem justificativas ou razões. Risco mais uma vez com caneta a fé do mundo. E digo que encontrei quem não deveria ter encontrado, porque risquei a ferro e fogo a fé no homem. De tudo sobrou a melancolia cinza fria de uma história que sequer chegou a ser. A massa cinza da cidade fria ergue-se sobre o pálido céu. Hoje vejo apenas uma figura inanimada. Parto dizendo adeus.
Acordo, tudo não passou de um sonho.


"milhões de vasos sem nenhuma flor.

o que você está dizendo?
o que você está fazendo?
por que que está fazendo assim?"

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

terça-feira, 23 de agosto de 2011

e se

Que a morte é a ausência da vida todo mundo sabe. E as horas giram devagar ou às vezes depressa demais. E o tempo engole tudo (ou quase). Passa o tempo mas não passa a saudade daqueles que um dia estiveram conosco. E as memórias podem ser todas esquecidas, pois, no exato instante em que aconteceram talvez não fossem tão importantes. E foram, e são, e em pouco tempo tudo se findará. As luzes ao fundo se apagam, os relógios de parede ou de pulso, o big ben, todos param. Um dia. E nada mais se tem além do vazio, que nada mais é que a ausência, ausência de quê? Quando o sol acabar, não chore por mim, não chore por mim que não quero ver você triste nem seus olhos cheios d’água. Deixa que com o tempo as coisas se acertam e o que não tem remédio remediado está. Então venha para perto de mim enquanto há tempo. Não deixe o sol se findar, e o tempo correr. E tudo acabar afinal. Que a morte é a ausência da vida todo mundo sabe. Mas e se eu morrer?