sábado, 25 de fevereiro de 2012
cinza.
O misterioso caso de miss V. – Virginia Woolf
Cinéreo seriam todos os dias que se seguiriam após a sua partida. Foi talvez em meados do ano retrasado que sua vida foi inundada de plena esperança e momentos vívidos de felicidade. E mesmo nessa madrugada de profunda melancolia poderia se lembrar de situações que lhe arrancariam do rosto um sorriso bobo. Talvez seja tão-só um dia, em que descompromissadamente decidiu olhar para aquele mesmo corredor que na maior parte do tempo está inundado de pessoas e conversas inúteis. Gostaria de ter todas as lembranças boas que aquela presença imprescindível lhe causava, mas, sabia que com o tempo a memória lhe falharia. Pensou em todas as suas palavras e nas folhas com sua escrita guardadas na esperança que ficassem longe do estrago do tempo. Com o passar dos anos as folhas se tornariam amareladas assim como a ferrugem que corrói os trilhos que a pouco indicavam um caminho. Nada resiste a presença do tempo, da distância, da chuva e da saudade. Os finais felizes somente ocorrem em filmes, e os filmes só são vistos por quem se habilita a colocá-los em algum aparelho de reprodução; sonhos não ocorrem a esmo e quando ocorrem são levados com a dor de uma partida. Decerto nunca houve um tempo em que de fato se arriscaria a dizer que não sofreria com partidas e as longas despedidas. É ignorante e quase ilógico pensar que esse momento não aconteceria, e ainda assim, não consegue evitar aquela dor que dilacera a alma e permanece escondida. Sob certas luzes a esperança se vê esfacelada e a realidade corta como navalha.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
sem aviso
Inútil foi o pensamento de que após o fim as coisas poderiam seguir como sempre foram antes de qualquer começo. Em meio a rebuliços pensou poder calar qualquer grito em que se levantasse a bandeira branca. No entanto, parece mais que certo que, uma hora ou outra as coisas se findarão por completo. Poderia adiantar o momento mandando tudo ao raio que o parta, mas anda fraca e sem esperanças pra se arriscar a perder mais alguém. Poria em palavras mais que desnecessárias todas essas frases tortas e enviaria por correio se pudesse. Escreveria cinco ou seis bilhetes e espalharia pela casa só para se lembrar de esquecer. Mudaria o quarto de lugar e todos os livros da estante e “enganaria mais uma vez o cérebro de que organizar purifica a alma”.
E a própria simplicidade das coisas se perde a cada momento de palavras mal ditas. Uma miríade delas se forma cada vez mais. Até quando, meu Deus?
"Calma
Dê o tempo ao tempo, calma
alma
Põe cada coisa em seu lugar
E o dia virá, algum dia virá
Sem aviso
então..."
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
sem título
Passaram juntos cerca de 5 anos. Nesse período ela poderia dizer que tudo ocorreu da melhor maneira possível. Percebia cada dia mais seu amor crescer, e, com ele a ideia de que o eterno existia. Nenhum aviso, nem mesmo dos amigos mais próximos, faria com que ela desistisse. Mas veio o tempo e com ele as marcas do passado que manchavam a vida do outro. E foi nesse momento que descobriu que um terceiro elemento que havia desaparecido decidiu voltar a dar as caras. Ele, que jamais esqueceu nem mesmo por um minuto desse outro, viu que este poderia ser o momento certo para voltar à vida. Lembre-se que aqui falei somente do amor e da felicidade dela, e em nenhum momento fiz qualquer referência ao sentimento do outro. É sabido que a única coisa que se sabe é que na verdade não se sabe nada sobre ele. Hoje, após certo tempo de término ele ainda cobrava que fossem amigos, ora, tanto tempo não poderia ser jogado às traças. Ela, irredutível sequer dava moral. Ele, em todo esse tempo jamais a amou – nem mesmo por um minuto -, e isso ela jamais perdoaria.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
liv and let die
“ When you were young and your heart was an open book
You used to say live and let live
(You know you did, you know you did, you know you did)
But if this ever-changing world in which we live in
Makes you give in and cry
Say live and let die
(Live and let die)
Live and let die
(Live and let die) ”
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
vero
“Chovia nas ruas do meu coração
Fora dos trilhos, cidades
Lua cheia clareava
Imaginei que sonhava
E era tudo real”
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
o conto mais triste do mundo
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas.
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros.
(Fernando Pessoa/Álvaro de Campos)
Pode entre o amor e a amizade alguém escolher o segundo? Eu respondo que não, e essa como todas as histórias do mundo não pode ser diferente. E não pode ser diferente não porque as personagens sejam comuns, porque não são, é simplesmente pelo fato de que no fim as justificativas para a felicidade sempre se encontram ligadas ao primeiro.
Já ia dar aquela coisa escura no coração, de quem perde alguma parte dele, sem nem mesmo saber por quê. E o que seguiria desde então seria um discurso dos amantes mal amados, que, creio não ser a questão. E ele diria coisas tolas como tudo se ajeita no final e sorriria como se sorri às pessoas de que se gosta muito. Lentamente ela sentiria que seu coração havia enfim se acalmado e conversariam sobre os últimos livros lidos.
No entanto, esse não é um dos casos em que a tristeza e a decepção podem ser substituídas por um sorriso e um abraço. E ela recusaria o abraço e partiria. Ele, mesmo imóvel, sentiria que naquele momento o fio que os ligavam havia se partido, e, dessa vez sem nenhuma chance de volta. E a chuva indicaria o fim de algo que sequer chegou a ser.
E não porque não o amasse, ou porque não o quisesse bem, ou porque ele havia deixado de ser seu melhor amigo, mas, porque não sabia mentir.
E não há, agora, motivo para os verbos das frases acima estarem no futuro do pretérito...
Escreveu a última carta, quase um bilhete, quase um apelo: - Desculpe, mas não posso morrer com você.
Nesse instante descobriu qual era o gosto que insistia em aparecer em seu paladar durante toda semana: era o de morte.
domingo, 27 de novembro de 2011
o fim
terça-feira, 15 de novembro de 2011
deixa o amanhã
“... indignando-se, quem sabe, uma vez a cada 15 dias, e depois aquietando-se como se aquietava agora.”
A Viagem – Virginia Woolf
Talvez, e na verdade havia passado pouco tempo, e agora assim deitada olhando para o teto como era de costume, perguntava-se como tudo passou tão rápido. Subverteu um sentimento que pensou nunca mais se extinguir. Não poderia sequer fazer uma pequena retrospectiva de como tudo caminhou, parecia enfim, que entrava em uma existência superior. Um dia, sequer se lembraria desse sentir que por alguns segundos a atormentara. Mistério maior seria descobrir como depois de tantos gestos e palavras medíocres não houve a ruptura fatal. Um dia meio triste, meio cinzento, meio qualquer coisa.
Um dia compreenderia que não existe uma pessoa completamente boa ou sem defeitos. Nas noites de inverno perceberia que não era regra ter alguém para tomar chocolate quente frente à lareira. Compreenderia, um dia, que quando pegasse o telefone para pedir ajuda ele não atenderia, não se importaria, não retornaria.
Daquele ser despido de qualquer sentimento nada poderia exigir.
Quase sentiu medo quando percebeu que poderia o ter perdido para sempre - que poderia ter perdido o garoto que um dia ela conheceu e sentou-se ao lado em um banco de praça qualquer - mas, agora não sentia nada. Somente aquelas pequenas agulhadas incomodavam vez ou outra quando ele quase que de propósito dizia ou fazia as piores coisas do mundo somente pelo simples prazer de sofrer.
bandolins
“Como fosse um par que nessa valsa triste se desenvolvesse ao som dos bandolins...
( Bandolins – Oswaldo Montenegro )
Então a noite chegara e como é de costume nesses tempos frios, decidiu dar uma volta pela cidade. O ar gélido em seu rosto a fazia lembrar dos invernos passados com a família a beira do lago congelado, e os bonecos de neve e todo o resto. Mas parecia que não iria nevar e só restava, portanto, o frio que queimava seu rosto e o silêncio na rua como se fosse tempo de reclusão. A princípio não havia se acostumado com esse ritmo em que olhares que se cruzavam poderiam nunca mais se encontrar, mas, com o tempo tudo tem seu remédio. Os passantes apenas se misturavam às luzes da cidade. De vez em quando algum barulho cortava a monotonia que era caminhar pelas ruas à noite, ainda que estas estivessem cheias de pessoas.
Pensou por um instante nessas pessoas. Onde estavam indo? O que fariam? Teriam elas um café quente e um amor quando chegassem em casa? E os solitários que por um instante não o estavam ao se misturarem aos demais transeuntes, o que fariam depois? Seriam ainda solitários em meio a tantas pessoas ou a solidão se daria apenas no momento em que abriam a porta de seu apartamento e não encontravam ninguém? Poderiam chamar esse local de lar?
As vitrines das lojas embaçadas pelo frio, lá dentro talvez, as pessoas estivessem felizes por mais uma noite de inverno em que poderiam tomar chocolate quente aos pés da lareira. Mais bonito seria se fosse Natal, todas aquelas luzes e os enfeites da cidade, e as árvores que poderiam ser brancas e verdes e coloridas ao mesmo tempo como em nenhuma outra época do ano. Poderia simbolizar um futuro melhor e talvez fosse esse mesmo o significado. Certo ou não, as pessoas por ora acreditavam. Ela ao contrário nunca tivera muita paciência com o Natal e nem mesmo com a passagem de ano, o novo a assustava, talvez por algum motivo. Em meio a esses pensamentos percebeu que se tornara por um instante vagamente frágil.
Continuou andando, aos poucos a grande aglomeração de pessoas passeando se resumia a pequenos grupos e alguns casais. O inverno era bonito porque as pessoas se aproximavam, isso desde os primórdios da existência, quando era preciso sobreviver. Hoje as pessoas ainda se ajuntam para sobreviver, mas não porque morreriam de frio.
Ao longe podia avistar uma roda de amigos que conversava, à porta de um Café. Não teriam muito o que fazer essa noite, com todo esse frio, pensou. Talvez a melhor ideia fosse ligar para algum amigo e propor uma ida ao café, mas as suas mãos agora quase se congelavam de frio e a melhor opção seria deixá-las dentro dos bolsos. E iria afinal, sozinha ao café.
Lá dentro, no café, realmente estava mais quente do que na rua. A decoração do local se assemelhava a qualquer coisa que lembrasse a década de sessenta, tons amarelos que se misturavam a vermelhos harmoniosamente. Um grande balcão de vidro onde se encontrava uma série de guloseimas. As mesas cercadas por banquinhos redondos completavam a decoração. Pensou que a pouco encontraria alguém com uma fita no cabelo. Não apareceu ninguém, a garçonete vestia uma roupa amarela e tinha uma fita no cabelo, mas nada indicava que ela havia voltado no tempo e parado em um café dos anos sessenta.
- Bonne nuit madame, s’il vous plait
- Je veux deux brioches et un café
Enquanto esperava percebeu que o local aos poucos se enchia, assim como a cidade lá fora. Parecia que todos estavam à espera de um acontecimento, pré-programado. De repente, um rapaz pediu para sentar-se ao seu lado. Logo o café chegou e distraída como estava sequer trocou uma palavra com ele, na verdade, nem o reparara direito.
Continua...
sábado, 29 de outubro de 2011
conto taciturno
Este é um tempo de silêncio. Tocam-te apenas. E no gesto
te empobrecem de afeto. No gesto te consomem.
Tocaram-te, nas tarde, assim como tocaste,
adolescente, a superfície parada de umas águas?
Tens ainda nas mãos a pequena raiz,
A fibra delicada que a si se construía em solidão?
Hilda Hilst
De repente aquele cheiro entrou pelo quarto, cheiro que a pouco pensara que nunca mais sentiria. A chuva serviu de pretesto para não sair de casa, pois, agora após tanto tempo e com o coração gélido não poderia se negar a sentir aquele cheiro exato. Trancou todas as portas e deitou-se. Seria um sinal? Após a chuva viria o arco-íris, mas isso agora não faria a menor diferença. Nem todo o céu límpido seria mais importante que o momento que finalmente havia se repetido após tanto tempo.
Confessara em silêncio que aquele era um momento que poderia ser o anterior a morte. De nada adiantaria viver sem poder sentir ao menos vezenquando aquele cheiro, o cheiro exato dele. Pode ser que após tanto tempo já não se tratasse mais do mesmo cheiro que sentiu quando o viu pela primeira vez. Pode ser que após tanto tempo apenas inventou um outro cheiro qualquer que serviria apenas para recriar os momentos em que a saudade aumentava tanto.
Ela que a pouco se queixava da solidão, agora sentia aquela mesma do momento da partida, quando ele disse que não mais voltaria. Decidiu nesse dia morrer, ou, viver ainda mais, com mais intensidade. Nenhuma promessa foi cumprida, e às vezes pegava-se pensando como tudo poderia ter sido diferente.
Aquela sombra que faziam os dois ao lado da cama no canto da parede nunca mais foi a mesma. Foi quando todas as coisas se dissolveram e sabia que desse caminho não haveria volta. E o amava muito a ponto de deixar qualquer caminho, ainda que nesse a felicidade fosse certa. Mas de nada adiantou.
Lembro-se dos momentos em que desejava ardentemente as horas que passavam naquele quarto, sob a penumbra. E por um instante passou por sua cabeça todo um filme, e parecia agora que tudo se repetia. Voltou os olhos para o relógio, mas percebeu que as horas não estavam paradas. O seu sonho afinal era apenas um sonho.
Começou a chorar.
Pensou que após tanto tempo as lágrimas finalmente haviam secado, mas enganou-se mais uma vez. Chorava agora não pelo que foi, muito menos pelo que poderia ter sido. Chorava enfim porque aquela saudade doía e sabia que cada vez que a brisa trouxesse aquele cheiro doeria da mesma forma e como se fosse a primeira vez.
Mas não era rara essa sensação de morte interna e logo depois de uma petição à vida, embora tivesse medo que essa petição deixaria de se dar uma hora. E pensou nisso de chorar e sentir saudade toda vez que sentisse o cheiro dele, só que agora percebeu que alguma coisa lá no fundo doía mais. E doía não porque um ou outro decidiu não mais ficar junto. Doía porque ela sabia que a qualquer momento não mais doeria e o sentir nada seria pior que qualquer pedido de volta.
E só, muito só, repetiu baixinho implorando que alguém ouvisse: “Ah como eu queria parar o mundo agora, só para poder te abraçar!”