Sempre que escrevo um poema, um poeta de verdade se remexe no túmulo, por dor ou por pena

terça-feira, 26 de junho de 2012

AUSENCIA

"Habré de levantar la vasta vida
que aún ahora es tu espejo:
cada mañana habré de reconstruirla.
Desde que te alejaste,
cuántos lugares se han tornado vanos
y sin sentido, iguales a luces en el día.
Tardes que fueron nicho de tu imagen,
músicas en que siempre me aguardabas,
palabras de aquel tiempo,
yo tendré que quebrarlas con mis manos.
¿En qué hondonada esconderé mi alma
para que no vea tu ausencia
que como un sol terrible, sin ocaso,
brilla definitiva y despiadada?
Tu ausencia me rodea
como la cuerda a la garganta,
el mar al que se hunde."

Jorge Luis Borges

quarta-feira, 6 de junho de 2012

domingo, 3 de junho de 2012

como de costume

Os habitantes
A cidade
A rua
O beco
Um assassinato
Corpo no chão

Lá fora a vida segue,
como de costume.

invisível teia

Invisível, a teia se refaz.
Cobre a casa, os móveis, as vidas.
Desliga a amizade
(algumas são desligáveis)
Retira o amor
Tece o ódio

o monstro

um, dois, três.
O monstro adormecido desperta.
quatro, cinco, seis.
Joga a poeira pro lado.
sete, oito, nove.
Solta fogo pelas ventas.
dez.
Acabou a paciência

sexta-feira, 1 de junho de 2012

lado B

De ontem para hoje nem tudo é normal. Daqui pro futuro falta menos que um suspiro. Eu por aqui vou repintando as paredes e mudando os móveis de lugar. Recortando coisas novas para colar no meu céu. Jogando aquele pincel cinza fora. Já não durmo e apago cigarros sem ver. Comprei outra garrafa de conhaque, outrodia abri uma garrafa de vinho. Alguns ressentimentos ainda perduram. No momento não há muito o que se fazer a respeito, apenas ascendo um novo cigarro. Tem muita vida passando pela janela do meu apartamento. Dia desses jogo tudo fora, pego minha mochila e vou embora pelo mundo. Tenho 20 e poucos anos e muita vida pra ser vista. Entôo algumas velhas canções, boto um folk novo para tocar no meu som. Daqui a pouco jogo tudo pro alto e mudo de vida, de nome, de tom. Qualquer dia desses paro de ouvir MPB e mudo de país. Tenho visto a vida passar pela janela do meu apartamento e sinto que a estou ignorando. Meia dúzia de livros na sacola e uns óculos de grau, tenho visto pouca gente interessante passar por mim. Dia desses comprei um óculos de sol com um poema, ainda não consegui lê-lo. Tem lua aqui e em todo lugar, não dá pra ficar lamentando a vida. Atravessa meu caminho de novo e colore meu mundo de cinza que eu atiro a primeira pedra que encontrar. Hoje eu só preciso de alguém distante, um alguém do outro lado que me arranque um sorriso bobo do rosto e me deixe (re)inventar o tempo. Daqui a pouco jogo tudo pro alto e mudo de vida, de nome, de sexo.

“How many nights of talking in hotel rooms can you take?
How many nights of limping round on pagan holidays?
Oh, elope with me in private and we'll set something ablaze
A trail for the devil to erase”

domingo, 1 de abril de 2012

nenhum milagre

“Conclui que não é infinito o número de possíveis experiências
e que basta uma única ‘repetição’
para demonstrar que o tempo é uma falácia”
O milagre secreto – Borges

O tempo é uma falácia!
Inúmeras vezes vi fatos se repetirem
Diversas noites foram viradas em vão
Contemplei meu corpo que jazia entre as ruínas de Roma
Nenhum milagre me salvará
Não encontrei Deus em nenhuma letra de nenhuma página dos milhares de livros que li
Ele jamais atenderá meu pedido
Tão desafortunado fui eu no dia em que acreditei que o encontraria
Nem em sonho tenho me salvado
Desejo a repetição de todos os outros dias
Coisa ainda mais falaciosa
Deixarei que meu corpo seja entregue e desfaleça
Não quero mais lutar
Que chegue o dia da sua execução

sábado, 24 de março de 2012

se tudo pode acontecer

Ao som de http://www.youtube.com/watch?v=6S4siwNUEc4

Não me pergunte como nem porquê, mas essa noite mais uma vez sonhei com você. Não sei quanto tempo durou e nem mesmo como começo, mas você lá estava. Às vezes assim você surge em mim como uma outra espécie de felicidade, coisa que eu jamais teria se pudesse ter você por perto todo o tempo. Pois para falar a verdade não sei por que naquele derradeiro dia me apaixonei por você. Embora eu soubesse que, uma vez tendo eu te encontrado nada mais poderia evitar em relação àquele profundo sentimento que vez ou outra vem nos visitar. Por vezes raras vi você passar por mim e lembro-me de cada uma delas. Frente ao espelho não mais me encontro durante muito tempo, até que sinto que posso te encontrar novamente. Nas páginas de um livro anotei seu nome para que não mais pudesse esquecê-lo. Desde então me desconheço e apenas me reconheço em ti quando posso ver-te. E todos os momentos anteriores a sua chegada são esquecidos. Nesse momento de silêncio que certamente se fará quando não tenho nada a dizer a você, é que eu me reencontro. Nesses encontros um tanto casuais, nessas tardes de quase a mesma estação...

“Pode alguém aparecer
E acontecer de ser você
Um cometa vir ao chão
Um relâmpago na escuridão
E a gente caminhando
De mão dada
de qualquer maneira

Eu quero que esse momento
Dure a vida inteira”

quinta-feira, 15 de março de 2012

o passado nunca mais

abra-te sésamo, bradou o ladrão de Bagdá!
o passado não vem mais, grito agora às portas do seu palacete!
por não estar colado e imerso em meu tempo posso analisar o passado
como o espelho que apenas nos reflete se mantermos certa distância
meu presente está fraturado, rompido e não me é possível colá-lo.
não posso ver através da luz, restou-me somente a análise do obscuro
como em um poema de Mandel’stam olho para trás com um sorriso insensato,
fraco e cruel posso apenas contemplar minhas pegadas
outrora ao lado delas existiam as suas
elas já se apagaram
o passado não volta mais!

quinta-feira, 8 de março de 2012

o quase demônio da perversidade

“Não existe paixão na natureza que seja tão demoniacamente impaciente como a daquele que hesita à margem de um precipício, meditando sobre se há de saltar ou não. Deter-se, ainda que por um momento, na contemplação desse pensamento, é estar inevitavelmente perdido; porque a reflexão nos ordena afastar-nos sem demora e portanto, exatamente por isso é que não podemos. Se não houver um braço amigo que nos ampare, ou se não fizermos um esforço súbito para nos afastarmos do abismo, saltaremos e seremos destruídos.”
O demônio da perversidade
Edgar Allan Poe

Ante o impulso de se jogar ou não do precipício outros tantos são capazes de perverter o sentimento humano. E nesse caso não há ombro amigo e nem esforço súbito para afastar-se. O demônio da perversidade ora capaz de tantas atrocidades com o outro se torna ainda mais imbatível quando age por um impulso que não teria surgido caso não existisse a situação desencadeada por seu rival.

Tal sentimento ignóbil se a pouco chama-se amor não passa da fraude mais barata, uma falácia em maior grau. Tudo se passa quando um outro o procura, você nesse momento tem todas as cartas na manga e pode ganhar ou perder o jogo, quer dizer, pode fazer com que o outro ganhe ou perca. Nesse momento você, dono da situação, não poderá perder a oportunidade de se mostrar no topo da pirâmide. Começa assim o jogo em que cabe ao outro arrastar-se até que tenha o corpo coberto de sangue. Nesse entremeio todo charme é necessário para que o jogo dure tempo necessário para o segundo passo.

O segundo se trata da parte mais aprazível para o causador do sofrimento. É nesse momento que você finge, inventa, fabula um gostar ao mesmo tempo que pede para o outro ir embora. Este, após mais uma vez se arrastar até o sangue às vezes recebe uma carta ou algumas explicações. Estas explicações falaciosas são importantes, uma vez que, através delas você tem a ressalva para um posterior arrependimento.

Ora, esse arrependimento só acontece quando você percebe que o outro não é tão tolo e imperceptível quanto se pensava. Está aí a importância do terceiro elemento, pois através dele você nota algo que não havia notado anteriormente. Sob esse prisma só há, portanto, uma falácia inscrita em outra; um falsário supremo.

Ademais, com o surgimento do terceiro elemento a narrativa torna-se mais interessante. Nesse momento você, e seu sentimento ignóbil, arquiteta uma trama de retorno. Essa trama é importante porque através dela você atinge o fim esperado, toda perspicácia é preciso. Todo erro do outro pode ser usado nesse momento como o estopim da guerra.

Você deve se agarrar ao mínimo detalhe e deve saber usá-lo no momento certo. Não se pode negar nesse momento que algo realmente tenha acontecido. Mas um sentimento surgido após a percepção do outro seria da mesma forma justo? Se o terceiro elemento não houvesse também criado uma situação de risco teria o outro se entregado ao falsário?

Todas essas perguntas permanecem evidentemente sem resposta, e tantas outras podem também ser feitas. O demônio da perversidade age nesse momento mostrando sua face mais oculta. Tudo dará certo, é claro, os demônios se usam de todas as armas até que um dia o terceiro elemento desapareça, ou, apareça ainda um quarto que pode se envolver tanto em um quanto em outro lado.

Esse não é o caso da natureza demoniacamente impaciente que hesita sem saber se deve ou não pular do precipício, é o caso de outra infinitamente pior, que hesita se deve ou não jogar o outro do precipício e esperar que ele estilhace e se encha novamente de sangue.


11 de outubro de 2011