Sempre que escrevo um poema, um poeta de verdade se remexe no túmulo, por dor ou por pena

quarta-feira, 14 de março de 2018

primeiro poema para ele


existe  sempre uma (inútil) tentativa do não sentir nada
ou aquela breve ilusão de que se você saltar no momento certo
tudo pode ser evitado

é mentira.

Se fosse possível,
tudo que fosse possível se faria para
não ter esse frio na barriga
essa memória (in)voluntária

Se fosse possível (e útil)
a gente faria toda a retrospectiva mental
de todas as vezes que deu errado
de todas os anos, meses, dias  e horas perdidos
dos minutos
de todo cigarro gasto

Se fosse possível
ninguém escolheria se apaixonar.

Se apaixonar
é perder o prumo
o rumo.

é achar que com o outro se tem um caminho junto

Se apaixonar
é se perder no mapa,
é perder a localização

todo mundo se perde um pouco quando se apaixona.



“... Porque ai senhor
A vida é pouca:
Um bater de asa
Um só caminho
Da minha à vossa
Casa...

E depois, nada”
hilda hilst

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

quando o amor acaba
não há resquício de rotina que segure
não há o que sustente

quando o amor acaba
é pior que dor de dente

pior que rima barata de poema

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

meu pensamento oscila
entre a vontade de te escrever
e a de queimar todas as suas cartas.

entre a pequena memória involuntária
que quebra a rotina
e enche de frio o espaço ocupado pelo meu corpo

a mesma memória
que refletida
não sabe se pode te amar ou odiar

e não sabendo
ama
pouco antes de se preencher de asco e fel


meu pensamento oscila
entre a vontade de te escrever
e a de queimar você e todas as suas cartas

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Se for possível, manda lhe dizer
que quando cai a tardinha
e colore de cinza o espaço
eu lembro do teu corpo estirado no meu quarto

que os dias sem a sua espera,
colorem de tinta ocre o espaço
e faz mais latente a vontade do seu abraço

Se for possível, manda lhe dizer
das desventuras que meu coração se meteu
desde que fundamos o centro-oeste do país
e seu corpo ficou estirado junto ao meu

que a imensidão da noite,
as luzes da cidade, as estrelas e o céu negro
são bem menores sem você, não nego

isso tudo o poeta inventa.




(Foi julho sim. E nunca mais esqueço)
Hilda Hilst

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

até parece máscara

[ "Metade homem, metade omisso
Uma parte morta, outra parte lixo
Não sou moura torta, macabea, poliana, franciscana 
Nada pra você

E você é um equívoco" ]




segunda-feira, 2 de outubro de 2017

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Não sei se a minha vida é uma tragédia de Shakespeare
Ou um filme do Woody Allen
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amor marginal

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..
Você poderia só me levar para sua casa
E foder comigo a noite inteira

Pra calar o sexo mais banal
Pra virar poesia
              [poesia pura, você escreveria]
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em Minas não tem mar

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veio como tormenta
nos meus dias monótonos e calmos
veio como vento que dilacera
o vago caminhar dos meus tristes passos

quisera fosse outro
e que seus braços pudessem encontrar os meus

quisera não houvesse um uni(verso) ocre
em tudo que o sertão envolve

eu agora
barco sem rumo em busca de cais
se faltar a paz
(não mais) Minas Gerais
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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Tomo,
por uns breves minutos desisto
imagino a água entrando pelos bolsos
o ar findo
imagino o sangue escorrendo pelo torso

Não fosse o medo do depois
já teria dado cabo nessa vida
Mas o que me dirá do vazio?

Gélido, incolor, restrito?
Só por isso insisto

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

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o vento assoviando passa pelo vidro da janela
décimo primeiro andar
luzes da cidade
            [coração solar?

dois corpos estirados na cama, inertes
                             [ um sentir rarefeito



não sei se me lembro
o que te ouvi dizer à noite
luzes da cidade
décimo primeiro andar


( és presente como um vento que corre entre portas abertas )
hilda hilst
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